A concordância verbal é um dos temas mais recorrentes nas provas de concursos públicos brasileiros, aparecendo em bancas como CESPE/CEBRASPE, FCC, VUNESP, FGV e IBFC. Seu domínio é indispensável para quem busca boas notas na parte de gramática, pois as questões exploram tanto a regra geral quanto os inúmeros casos especiais que geram dúvida — e que são exatamente os preferidos dos elaboradores. Conhecer cada nuance da concordância verbal distingue os candidatos que apenas memorizam da regra dos que realmente compreendem a língua portuguesa em profundidade.
Regra Geral da Concordância Verbal
A regra geral da concordância verbal é simples e serve de ponto de partida para todo o estudo do tema: o verbo concorda em número (singular ou plural) e em pessoa (primeira, segunda ou terceira) com o seu sujeito. Identificar corretamente o sujeito da oração é, portanto, o passo fundamental antes de qualquer análise.
Exemplos básicos:
- O candidato estudou muito. — sujeito singular, verbo no singular.
- Os candidatos estudaram muito. — sujeito plural, verbo no plural.
- Eu trabalho todos os dias. — primeira pessoa do singular.
- Nós trabalhamos todos os dias. — primeira pessoa do plural.
As dificuldades surgem quando o sujeito não está imediatamente antes do verbo, quando há mais de um núcleo no sujeito ou quando expressões de sentido coletivo entram em cena. Nesses casos, aplicam-se regras específicas que serão detalhadas a seguir.
Casos Especiais — Sujeito Composto
O sujeito composto é aquele formado por dois ou mais núcleos. Nessa situação, o comportamento do verbo varia conforme a posição do sujeito em relação ao verbo e conforme a conjunção que une os núcleos.
Sujeito Composto Antes do Verbo
Quando o sujeito composto está antes do verbo, a regra geral determina que o verbo vá para o plural:
- Pedro e Maria chegaram cedo.
- O diretor e a secretária assinaram o documento.
Há, entretanto, duas exceções importantes reconhecidas pela gramática normativa:
a) Núcleos sinônimos ou de sentido equivalente: quando os termos expressam a mesma ideia, o verbo pode ficar no singular.
- A angústia e o desespero tomou conta do ambiente. (sinônimos — singular aceito)
b) Núcleos em gradação crescente ou decrescente: o verbo costuma concordar com o último deles.
- Um olhar, uma palavra, um gesto bastava para acalmá-lo.
Sujeito Composto Depois do Verbo
Quando o sujeito composto vem depois do verbo, abre-se a possibilidade de o verbo concordar apenas com o núcleo mais próximo (concordância atrativa) ou ir para o plural (concordância gramatical). Ambas as formas são aceitas pela norma culta:
- Chegou o diretor e a secretária. (concordância com o núcleo mais próximo — singular)
- Chegaram o diretor e a secretária. (concordância com o sujeito composto — plural)
Sujeito Composto com “ou” e “nem”
a) “Ou” com sentido de exclusão (uma coisa ou outra, não ambas): o verbo fica no singular.
- João ou Pedro será o representante da turma. (somente um dos dois)
b) “Ou” com sentido de inclusão (ambos os sujeitos praticam a ação): o verbo vai para o plural.
- A negligência ou a imprudência causam acidentes. (ambas causam)
c) “Nem” (= e não): em geral, o verbo vai para o plural, pois a ideia é de adição negativa.
- Nem o chefe nem os funcionários sabiam da decisão.
Casos Especiais — Sujeito Coletivo
O sujeito coletivo é um substantivo singular que designa um conjunto de seres: povo, multidão, rebanho, equipe, comissão, exército, conselho, entre outros. Por ser gramaticalmente singular, o verbo fica no singular quando o coletivo está sozinho, sem adjunto adnominal:
- O exército marchou pela cidade.
- A comissão deliberou por unanimidade.
Quando o coletivo vem seguido de adjunto adnominal no plural (“de + substantivo no plural”), a concordância torna-se facultativa:
- A multidão de manifestantes ocupou / ocuparam as ruas.
- Um grupo de alunos foi / foram aprovado(s) na prova.
Casos Especiais — Expressões Partitivas
As expressões partitivas indicam parte de um todo: a maioria de, a maior parte de, a metade de, boa parte de, grande número de, parte de. Quando funcionam como sujeito seguidas de um substantivo no plural, a concordância verbal é facultativa:
- A maioria dos candidatos passou / passaram na prova.
- A maior parte dos documentos foi / foram entregue(s) no prazo.
- Grande número de pessoas compareceu / compareceram ao evento.
Quando a expressão partitiva vier sozinha, sem o complemento no plural, o verbo fica obrigatoriamente no singular:
- A maioria concordou com a proposta.
Verbos Impessoais — Haver, Fazer e Ser
Os verbos impessoais não possuem sujeito e, por isso, ficam obrigatoriamente na terceira pessoa do singular.
Verbo “haver” com sentido de existir ou ocorrer: é impessoal e não varia em número.
- Há muitas vagas no concurso. (correto — não “hão”)
- Havia candidatos inscritos. (correto — não “haviam”)
- Houve manifestações na cidade. (correto — não “houveram”)
Verbo “fazer” indicando tempo decorrido ou fenômeno meteorológico: também é impessoal e fica no singular.
- Faz dois anos que não o vejo. (correto — não “fazem”)
- Faz muito calor nesta cidade.
- Fazia três semanas que ele havia sumido.
Verbo “ser” — casos especiais: quando indica horas, datas ou distâncias, concorda com o predicativo:
- São duas horas. (predicativo no plural → verbo no plural)
- É uma hora. (predicativo no singular → verbo no singular)
- Hoje são quinze de março.
- São dez quilômetros daqui até lá.
Quando o predicativo for “muito”, “pouco”, “mais”, “menos”, “tudo”, “nada”, o verbo “ser” fica no singular: Cinquenta reais é pouco para pagar a conta.
Concordância com Pronomes Relativos — que, quem, o qual
Quando o verbo da oração subordinada adjetiva tem como sujeito um pronome relativo, ele concorda com o antecedente do pronome relativo.
Com o pronome relativo “que”:
- Fui eu que resolvi o problema. — antecedente de “que” é “eu” → verbo na primeira pessoa do singular.
- Fomos nós que organizamos o evento.
- Foi você que chegou atrasado.
Com o pronome relativo “quem”: o verbo pode concordar com o antecedente ou com o pronome “quem” (terceira pessoa do singular).
- Fui eu quem resolveu o problema. (concordância com “quem” — mais formal)
- Fui eu quem resolvi o problema. (concordância com o antecedente “eu” — também aceita)
Tabela-Resumo dos Casos Especiais
| Situação | Regra | Exemplo |
|---|---|---|
| Sujeito composto antes do verbo | Verbo no plural (regra geral) | Pedro e Ana chegaram. |
| Sujeito composto com sinônimos | Verbo no singular (facultativo) | A angústia e o desespero tomou conta. |
| Sujeito composto depois do verbo | Singular ou plural (facultativo) | Chegou/Chegaram o pai e a mãe. |
| Sujeito composto com “ou” exclusivo | Verbo no singular | João ou Maria será eleito. |
| Sujeito composto com “ou” inclusivo | Verbo no plural | O frio ou o calor causam doenças. |
| Sujeito coletivo sem adjunto | Verbo no singular | A turma saiu cedo. |
| Coletivo + adjunto no plural | Singular ou plural (facultativo) | A turma de alunos saiu/saíram. |
| Expressão partitiva + plural | Singular ou plural (facultativo) | A maioria dos alunos passou/passaram. |
| “Haver” existencial | Sempre singular (impessoal) | Há muitas vagas. |
| “Fazer” indicando tempo | Sempre singular (impessoal) | Faz dois anos que partiu. |
| “Ser” indicando horas/datas | Concorda com o predicativo | São duas horas. / É uma hora. |
| Pronome relativo “que” | Verbo concorda com o antecedente | Fui eu que resolvi. |
| Pronome relativo “quem” | Singular (com “quem”) ou com antecedente | Fui eu quem resolveu / resolvi. |
Erros Clássicos em Prova
1. Pluralizar “haver” existencial: escrever “haviam muitas pessoas” em vez de “havia muitas pessoas” é um dos erros mais comuns e mais cobrados.
2. Pluralizar “fazer” impessoal: “fazem dois anos” em vez de “faz dois anos”.
3. Confundir “haver” impessoal com “ter” pessoal: Na norma culta, “ter” com sentido de existir é pessoal e concorda: “Tinham muitas pessoas” (terceira pessoa do plural), ao passo que “havia muitas pessoas” fica no singular. Esse ponto é fonte de muita confusão.
4. Não perceber que o sujeito composto está depois do verbo: em frases como “Chegou o requerimento e os anexos”, o verbo pode ficar no singular por concordância atrativa — ponto que candidatos frequentemente erram.
5. Confundir coletivo com sujeito plural: A distinção entre coletivo e plural real é essencial para a análise correta.
6. Assumir que “a maioria” exige singular obrigatório: Bancas frequentemente apresentam o verbo no plural após “a maioria de” e perguntam se está errado. A resposta é não — ambos são corretos.
Questões Comentadas
Questão 1 — CESPE/CEBRASPE
“Haviam muitos candidatos inscritos no concurso.”
Gabarito: ERRADO. O verbo “haver” com sentido de existir é impessoal e deve permanecer no singular. A forma correta é: “Havia muitos candidatos inscritos no concurso.”
Questão 2 — FCC
“A maioria dos servidores públicos receberam o comunicado em tempo hábil.”
Gabarito: CERTO. Quando o sujeito é uma expressão partitiva como “a maioria de” seguida de substantivo no plural, a concordância pode ser feita tanto no singular (recebeu) quanto no plural (receberam). Ambas as formas estão corretas pela gramática normativa.
Questão 3 — CESPE/CEBRASPE
“Faz três anos que ele não aparece nas reuniões.”
A questão afirmava que o verbo “faz” deveria ser substituído por “fazem” para a frase ficar correta.
Gabarito: ERRADO. O verbo “fazer” indicando tempo decorrido é impessoal e deve permanecer no singular. A frase original já está correta.
Questão 4 — VUNESP
“Somos nós que devemos resolver o problema.”
Gabarito: CERTO. O pronome relativo “que” tem como antecedente “nós” (primeira pessoa do plural). Portanto, o verbo na oração subordinada adjetiva deve concordar com esse antecedente: “devemos” — primeira pessoa do plural. A frase está em plena conformidade com a norma culta.
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