A flexão verbal é um dos temas mais cobrados em provas de concursos públicos que exigem conhecimentos de Língua Portuguesa. Entender como os verbos se flexionam em pessoa, número, tempo, modo e voz é fundamental não apenas para acertar questões de morfologia, mas também para interpretar textos com precisão, identificar erros de concordância e dominar a norma-padrão exigida nas redações oficiais. Este artigo apresenta uma síntese completa e didática de todos os aspectos da flexão verbal, com exemplos práticos e questões comentadas para potencializar seu desempenho nas provas.
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📌 Pessoa e Número
O verbo em português concorda com o sujeito em pessoa e número. A pessoa indica quem realiza ou sofre a ação, enquanto o número indica se o sujeito é singular (um) ou plural (mais de um). Essas informações são expressas pelas desinências número-pessoais (DNP), que se somam ao radical do verbo.
As três pessoas gramaticais são:
- 1ª pessoa do singular — eu (falante): Eu falo.
- 2ª pessoa do singular — tu (interlocutor): Tu falas.
- 3ª pessoa do singular — ele/ela/você: Ele fala.
- 1ª pessoa do plural — nós: Nós falamos.
- 2ª pessoa do plural — vós: Vós falais.
- 3ª pessoa do plural — eles/elas/vocês: Eles falam.
A correta identificação da pessoa verbal é indispensável para a concordância verbal. Em concursos, erros comuns incluem a não concordância do verbo com o sujeito posposto ou com sujeitos compostos. Lembre-se de que “você” e “vocês” se conjugam na 3ª pessoa, embora refiram-se ao interlocutor. As desinências número-pessoais mais comuns no indicativo presente são: -o (1ª sg.), -s (2ª sg.), zero (3ª sg.), -mos (1ª pl.), -is (2ª pl.) e -m (3ª pl.).
⏳ Tempo Verbal
O tempo verbal situa a ação ou estado no eixo cronológico: passado, presente ou futuro. Cada modo verbal possui um conjunto próprio de tempos. As desinências modo-temporais (DMT) são os morfemas que, acrescidos ao radical, indicam o tempo e o modo do verbo.
Modo Indicativo — Tempos
O modo indicativo é o mais rico em tempos verbais. Seus tempos simples são:
- Presente: ação simultânea ao momento da fala ou verdade atemporal. Eu falo a verdade.
- Pretérito Perfeito: ação concluída no passado. Eu falei com ele ontem.
- Pretérito Imperfeito: ação habitual, contínua ou não concluída no passado. Eu falava com ele todos os dias.
- Pretérito Mais-que-perfeito: ação anterior a outra ação passada. Quando cheguei, ele já falara com todos. (simples) / já tinha falado (composto).
- Futuro do Presente: ação que ocorrerá após o momento da fala. Eu falarei amanhã.
- Futuro do Pretérito (Condicional): ação futura em relação a um ponto do passado, ou ação hipotética. Eu falaria se pudesse.
Modo Subjuntivo — Tempos
O subjuntivo expressa hipótese, desejo, dúvida ou condição. Seus tempos simples são:
- Presente do Subjuntivo: hipótese ou desejo presente/futuro. Espero que ele fale.
- Pretérito Imperfeito do Subjuntivo: hipótese ou condição no passado. Se ele falasse, tudo seria diferente.
- Futuro do Subjuntivo: condição projetada para o futuro. Quando ele falar, ouviremos.
Além dos tempos simples, tanto o indicativo quanto o subjuntivo têm tempos compostos, formados com os auxiliares ter ou haver mais o particípio do verbo principal. No indicativo: tenho falado, tinha falado, terei falado, teria falado. No subjuntivo: tenha falado, tivesse falado, tiver falado.
🎭 Modo Verbal
O modo verbal expressa a atitude do falante em relação ao fato enunciado. O português possui três modos: indicativo, subjuntivo e imperativo.
Indicativo
Exprime fatos reais, certos ou apresentados como certos pelo falante. É o modo da certeza e da objetividade. O candidato estudou muito. É o modo mais frequente em textos informativos e redações oficiais.
Subjuntivo
Exprime fatos hipotéticos, incertos, desejados, temidos ou condicionais. Em geral, aparece em orações subordinadas introduzidas por conjunções como se, embora, caso, quando, para que, desde que etc. Caso o candidato estude, será aprovado. Atenção: o futuro do subjuntivo é muito cobrado em provas, especialmente em orações adverbiais temporais e condicionais: Quando você chegar, ligue para mim.
Imperativo
Exprime ordem, pedido, conselho, proibição ou exortação. Divide-se em imperativo afirmativo e imperativo negativo. No afirmativo, as formas de 2ª pessoa (tu/vós) são derivadas do indicativo presente; as demais (você, nós, vocês) são derivadas do presente do subjuntivo. No negativo, todas as formas vêm do subjuntivo presente.
- Imperativo afirmativo: fala (tu), fale (você), falemos (nós), falai (vós), falem (vocês).
- Imperativo negativo: não fales (tu), não fale (você), não falemos (nós), não faleis (vós), não falem (vocês).
🔄 Voz Verbal
A voz verbal indica a relação entre o sujeito e a ação expressa pelo verbo. Há três vozes em português: ativa, passiva e reflexiva.
Voz Ativa
O sujeito é o agente, isto é, quem pratica a ação. O governo publicou o edital. (sujeito: o governo; objeto direto: o edital).
Voz Passiva Analítica
O sujeito é o paciente, quem sofre a ação. Forma-se com o auxiliar ser (ou estar, ficar) + particípio do verbo principal. O agente da passiva, quando expresso, vem introduzido pela preposição por (ou de). O edital foi publicado pelo governo.
Voz Passiva Sintética (Pronome Apassivador)
Usa-se o pronome se como apassivador junto ao verbo na voz ativa. Essa construção só é possível com verbos transitivos diretos (VTD) — é isso que permite ao se atuar como apassivador, transformando o objeto direto em sujeito paciente. O sujeito é o paciente e o verbo concorda com ele. Vendem-se casas. = Casas são vendidas. | Vende-se apartamento. = Apartamento é vendido. Note que o verbo concorda com o sujeito paciente (casas → vendem; apartamento → vende). Esse ponto é muito explorado em provas que envolvem concordância verbal com o pronome se.
Voz Reflexiva
O sujeito pratica e ao mesmo tempo sofre a ação. O pronome reflexivo (me, te, se, nos, vos) retorna ao próprio sujeito. Ela se penteou. Há também a voz reflexiva recíproca, em que os sujeitos praticam a ação uns sobre os outros: Eles se cumprimentaram.
Resumo das Vozes
- Ativa: sujeito agente + VTD/VTI + objeto — o sujeito pratica a ação. Ex.: O juiz assinou a sentença.
- Passiva analítica: sujeito paciente + ser + particípio (+ por + agente) — o auxiliar “ser” varia em tempo/pessoa. Ex.: A sentença foi assinada pelo juiz.
- Passiva sintética: verbo + SE + sujeito paciente — o verbo concorda com o sujeito posposto. Ex.: Assinaram-se as sentenças.
- Reflexiva: sujeito + verbo + pronome reflexivo — o sujeito age sobre si mesmo. Ex.: O réu se apresentou.
📚 Conjugação Completa — Verbo “Falar”
A lista a seguir apresenta a conjugação do verbo modelo falar (1ª conjugação, terminação -AR) nos principais tempos e modos, servindo como referência para identificar padrões aplicáveis a outros verbos regulares.
Indicativo
- Presente: eu falo, tu falas, ele fala, nós falamos, vós falais, eles falam.
- Pretérito Perfeito: eu falei, tu falaste, ele falou, nós falamos, vós falastes, eles falaram.
- Pretérito Imperfeito: eu falava, tu falavas, ele falava, nós falávamos, vós faláveis, eles falavam.
- Pretérito Mais-que-perfeito: eu falara, tu falaras, ele falara, nós faláramos, vós faláreis, eles falaram.
- Futuro do Presente: eu falarei, tu falarás, ele falará, nós falaremos, vós falareis, eles falarão.
- Futuro do Pretérito: eu falaria, tu falarias, ele falaria, nós falaríamos, vós falaríeis, eles falariam.
Subjuntivo
- Presente: que eu fale, que tu fales, que ele fale, que nós falemos, que vós faleis, que eles falem.
- Pretérito Imperfeito: se eu falasse, se tu falasses, se ele falasse, se nós falássemos, se vós falásseis, se eles falassem.
- Futuro: quando eu falar, quando tu falares, quando ele falar, quando nós falarmos, quando vós falardes, quando eles falarem.
Imperativo
- Afirmativo: fala (tu), fale (você), falemos (nós), falai (vós), falem (vocês).
- Negativo: não fales (tu), não fale (você), não falemos (nós), não faleis (vós), não falem (vocês).
🧩 Formas Nominais do Verbo
As formas nominais não se flexionam em pessoa, exceto o infinitivo pessoal (que também varia em número). Também não variam em gênero e número, exceto o particípio, que concorda quando funciona como adjetivo. Funcionam como nomes (substantivos, adjetivos ou advérbios) na frase. São três: infinitivo, gerúndio e particípio.
Infinitivo
O infinitivo impessoal não varia e indica a ação de forma abstrata: falar, comer, partir. O infinitivo pessoal flexiona-se em pessoa e número e é usado quando cada sujeito realiza a ação de forma independente ou para evitar ambiguidade: É importante falarmos a verdade. (nós) / Mandei-os entrarem. Usa-se infinitivo pessoal principalmente quando o sujeito do infinitivo é diferente do sujeito da oração principal.
Gerúndio
Formado pelo radical + -ando / -endo / -indo, o gerúndio indica ação em curso, simultânea a outra, ou serve como base para os tempos contínuos: estou falando, foi saindo, chegou cantando. Em provas, o uso indevido do gerúndio no lugar do particípio é erro clássico: *O acusado foi julgando (errado) → O acusado foi julgado (correto, passiva com particípio).
Particípio
O particípio tem duas funções principais: (1) compor os tempos compostos com os auxiliares ter e haver: tinha falado, havia partido; (2) funcionar como adjetivo, concordando em gênero e número com o nome: a porta fechada, os documentos assinados. Atenção: verbos com duas formas de particípio (duplo particípio) usam a forma regular com ter/haver e a irregular com ser/estar/ficar. Exemplos: aceitado/aceito, entregado/entregue, matado/morto, soltado/solto, salvado/salvo.
⚠️ Erros Clássicos em Prova
1. “Assistir” (ver) não aceita voz passiva sintética
O verbo assistir com o sentido de “ver, presenciar” é verbo transitivo indireto (rege preposição a): Assisti ao jogo. Por isso, não aceita voz passiva sintética com SE. A frase “Assiste-se ao jogo” não é voz passiva, mas sim índice de indeterminação do sujeito (o SE não é apassivador com verbos intransitivos ou transitivos indiretos). Muitas provas cobram exatamente essa distinção: SE apassivador ocorre apenas com verbos transitivos diretos. Compare: Vendem-se imóveis. (passiva sintética, VTD) vs. Precisa-se de funcionários. (sujeito indeterminado, VTI).
2. Confusão entre pretérito perfeito e imperfeito
O pretérito perfeito indica ação concluída, pontual, com resultado definitivo: Ele falou com o chefe e resolveu o problema. O pretérito imperfeito indica ação habitual, contínua, ou que estava em andamento quando outra ocorreu: Quando eu chegava, ele sempre falava ao telefone. Trocar um pelo outro altera completamente o sentido da frase. Em provas de interpretação textual, o tempo verbal é pista essencial para entender aspectos como habitualidade, conclusão ou simultaneidade de ações.
3. Gerúndio versus particípio em locuções verbais
Com o auxiliar ter/haver, usa-se sempre o particípio: Ele tinha estudado. / Havíamos concluído. Com o auxiliar estar/andar/ficar/vir, usa-se o gerúndio: Ele estava estudando. / Anda reclamando de tudo. O chamado “gerundismo” — uso indevido de locuções com gerúndio em lugar de outras construções — é apontado como desvio de norma: *Vou estar enviando o documento (estilo burocrático inadequado) → prefira Enviarei o documento ou Vou enviar o documento.
4. Concordância na passiva sintética — verbo no plural
Na voz passiva sintética, o verbo deve concordar com o sujeito paciente. É erro manter o verbo no singular quando o sujeito é plural: *Vende-se casas (errado) → Vendem-se casas (correto). Esse ponto é frequentemente cobrado com o sujeito posposto ao verbo, o que induz o candidato a não perceber o plural.
📝 Questões Comentadas
Questão 1
Enunciado: “Reescrevendo a oração ‘O servidor entregou o relatório’ para a voz passiva analítica, obtém-se: ‘O relatório foi entregue pelo servidor’. A alteração está correta?”
A conversão está correta. O objeto direto (o relatório) tornou-se sujeito paciente; o verbo foi construído com o auxiliar ser no mesmo tempo (pretérito perfeito: foi) mais o particípio entregue (forma irregular de entregar, usada com ser/estar/ficar); e o sujeito agente (o servidor) passou a agente da passiva, introduzido pela preposição por. Atenção ao particípio: entregado seria usado apenas com ter/haver.
Gabarito: Certo.
Questão 2
Enunciado: Assinale a alternativa em que o emprego do tempo verbal está de acordo com a norma-padrão:
(A) Se ele estudaria mais, seria aprovado.
(B) Se ele estudasse mais, seria aprovado.
(C) Se ele teria estudado mais, seria aprovado.
(A) incorreta. Jamais se usa futuro do pretérito (“estudaria”) na oração subordinada introduzida por “se” condicional.
(B) correta. Em orações condicionais introduzidas por se, a oração subordinada usa o pretérito imperfeito do subjuntivo (“estudasse”), e a principal usa o futuro do pretérito (“seria”).
(C) incorreta. Mesmo erro de (A): “teria estudado” é futuro do pretérito composto, também incompatível com a oração introduzida por “se” condicional.
Gabarito: (B).
Questão 3
Enunciado: Em “Alugam-se salas comerciais”, o verbo está no plural porque:
(A) o pronome SE é sujeito
(B) “salas comerciais” é o sujeito paciente, com o qual o verbo concorda
(C) o verbo é impessoal
(D) SE é objeto direto
(A) incorreta. O SE não é sujeito da oração — é pronome apassivador.
(B) correta. A frase está na voz passiva sintética. Salas comerciais é o sujeito paciente, e o verbo concorda com ele no plural: alugam-se.
(C) incorreta. O verbo não é impessoal — seria impessoal apenas se indicasse fenômeno da natureza ou com verbos como haver no sentido de existir.
(D) incorreta. SE não é objeto direto nessa construção — é pronome apassivador.
Gabarito: (B).
Questão 4
Enunciado: Identifique o modo verbal e o tempo da forma “tivessem concluído”, em “Era necessário que eles tivessem concluído o projeto antes da reunião”.
A locução verbal tivessem concluído é formada por tivessem (pretérito imperfeito do subjuntivo do verbo ter) + concluído (particípio de concluir), resultando no pretérito mais-que-perfeito composto do subjuntivo. Esse tempo composto indica uma ação hipotética anterior a outra no passado. É introduzido pela conjunção que, que subordina a oração ao verbo era necessário, verbo de necessidade que exige subjuntivo.
Gabarito: pretérito mais-que-perfeito composto do subjuntivo.
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👉 Continue os estudos: Resumo Português: Verbos — Emprego de tempos e modos verbais
📘 SE só é apassivador com verbo transitivo direto — é essa regra que separa “Vendem-se casas” de “Precisa-se de funcionários”.
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