O estudo dos pronomes é um dos temas mais frequentes nas provas de Língua Portuguesa para concursos públicos. A classificação, o emprego e, sobretudo, a colocação pronominal são amplamente explorados como instrumentos de avaliação do domínio gramatical do candidato. Conhecer com precisão cada categoria pronominal — e os contextos em que cada forma é exigida — representa vantagem decisiva na disputa por vagas em cargos públicos. Este artigo apresenta de forma sistemática e objetiva os principais aspectos dos pronomes em português, com foco nas questões que mais caem em prova.
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📌 O que são pronomes
Pronome é a palavra que substitui ou acompanha o substantivo, indicando as pessoas do discurso ou situando os seres no espaço, no tempo ou na posse. Quando substitui o substantivo, o pronome exerce a função de pronome substantivo; quando acompanha o substantivo, funciona como pronome adjetivo. Essa distinção é relevante porque determina a função sintática exercida pelo pronome na oração.
🔤 Pronomes Pessoais
Os pronomes pessoais indicam as pessoas do discurso: quem fala (1ª pessoa), com quem se fala (2ª pessoa) e de quem se fala (3ª pessoa). Dividem-se em retos, oblíquos átonos e oblíquos tônicos.
- 1ª singular: reto eu; oblíquo átono me; oblíquo tônico mim, comigo.
- 2ª singular: reto tu; oblíquo átono te; oblíquo tônico ti, contigo.
- 3ª singular: reto ele/ela; oblíquo átono o, a, lhe; oblíquo tônico ele, ela, si, consigo.
- 1ª plural: reto nós; oblíquo átono nos; oblíquo tônico nós, conosco.
- 2ª plural: reto vós; oblíquo átono vos; oblíquo tônico vós, convosco.
- 3ª plural: reto eles/elas; oblíquo átono os, as, lhes; oblíquo tônico eles, elas, si, consigo.
Pronome reto como sujeito e oblíquo como complemento
O pronome reto exerce função de sujeito. Jamais deve ser usado como complemento verbal ou nominal. O pronome oblíquo tônico, precedido de preposição, é o correto para exercer função de complemento. Assim, dizer “entre eu e você” está errado — a forma correta é “entre mim e você”, pois após a preposição “entre” o pronome deve ser oblíquo tônico.
Da mesma forma, “para eu fazer” está correto quando “eu” é sujeito do infinitivo — trata-se do infinitivo pessoal, em que “eu” funciona como sujeito de “fazer”, não como complemento de “para”. Nesse caso específico, usa-se o pronome reto porque ele é o sujeito do infinitivo. Porém, quando não há verbo no infinitivo, aplica-se a regra geral: usa-se o oblíquo após preposição (“Isso é para mim”).
O pronome “você” e o tratamento
O pronome “você” é gramaticalmente de 3ª pessoa, embora semanticamente equivalha à 2ª. Isso significa que os verbos com “você” são conjugados na 3ª pessoa do singular, e os pronomes oblíquos correspondentes são “o”, “a”, “lhe” — não “te”. Já “o senhor” e “a senhora” seguem a mesma regra de 3ª pessoa.
🔄 Colocação Pronominal
A colocação pronominal trata da posição dos pronomes oblíquos átonos em relação ao verbo. Existem três posições possíveis: próclise (pronome antes do verbo), ênclise (pronome após o verbo) e mesóclise (pronome no meio do verbo — exclusiva de futuro do presente e futuro do pretérito).
Próclise — quando é obrigatória
A próclise é exigida quando há, na oração, palavras atrativas que puxam o pronome para antes do verbo. São elas:
- Palavras negativas: não, nunca, jamais, nada, ninguém, nem. Ex.: Não me disseram nada.
- Conjunções subordinativas: que, se, porque, embora, quando, como, conforme etc. Ex.: Espero que se comporte.
- Pronomes relativos: que, quem, o qual, cujo, onde. Ex.: O candidato que se destacou foi aprovado.
- Pronomes indefinidos: alguém, ninguém, tudo, algo. Ex.: Alguém me avisou sobre a prova.
- Pronomes interrogativos: quem, que, qual, quanto. Ex.: Quem lhe disse isso?
- Advérbios (sem pausa): aqui, ali, lá, já, sempre, talvez. Ex.: Talvez nos encontremos amanhã.
Ênclise — quando é usada
A ênclise é a colocação padrão em língua escrita culta quando não há palavra atrativa. Ocorre obrigatoriamente:
- Quando o verbo inicia a oração. Ex.: Diga-me a verdade. (nunca “Me diga” no início de frase, segundo a norma culta escrita)
- Com verbo no imperativo afirmativo. Ex.: Faça-o agora.
- Com infinitivo impessoal. Ex.: É preciso fazê-lo.
- Com gerúndio (sem “em”). Ex.: Falando-se a verdade, tudo se resolve. Quando o gerúndio vem precedido de “em”, a preposição vira palavra atrativa e a regra se inverte: exige próclise — Em se tratando de provas, a atenção redobra (nunca “Em tratando-se de provas”).
Mesóclise — uso restrito ao futuro
A mesóclise é exclusiva dos verbos no futuro do presente e no futuro do pretérito (condicional). Ocorre quando não há palavra atrativa: Dir-lhe-ei a verdade amanhã. / Far-me-ia bem descansar. Quando há palavra atrativa antes do verbo no futuro, usa-se a próclise: Não lhe direi nada.
Próclise e ênclise com locuções verbais
Nas locuções verbais, a colocação do pronome segue regras específicas: se houver palavra atrativa, o pronome pode ficar antes do auxiliar (próclise) ou entre o auxiliar e o verbo principal — nunca após o verbo principal no infinitivo ou gerúndio quando há palavra atrativa. Ex.: Não vou me atrasar. / Não me vou atrasar. Sem palavra atrativa: Vou atrasar-me.
👤 Pronomes Possessivos
Os pronomes possessivos indicam posse em relação às pessoas do discurso. Concordam em gênero e número com o objeto possuído, não com o possuidor.
- 1ª singular: meu, minha, meus, minhas.
- 2ª singular: teu, tua, teus, tuas.
- 3ª singular: seu, sua, seus, suas.
- 1ª plural: nosso, nossa, nossos, nossas.
- 2ª plural: vosso, vossa, vossos, vossas.
- 3ª plural: seu, sua, seus, suas (mesma forma da 3ª pessoa do singular).
Uso do artigo com possessivo e ambiguidade de “seu/sua”
Na norma culta, o artigo antes do possessivo é facultativo: tanto “o meu livro” quanto “meu livro” estão corretos. A presença do artigo pode, em alguns contextos, indicar algo mais específico ou enfático.
A maior armadilha dos possessivos em prova é a ambiguidade de “seu/sua”. Como esses pronomes correspondem tanto à 2ª quanto à 3ª pessoa, a frase “Pedro falou com João sobre seu problema” é ambígua: “seu” pode referir-se ao problema de Pedro ou ao de João. Para eliminar a ambiguidade, usam-se as formas “dele/dela/deles/delas”: “Pedro falou com João sobre o problema dele (= de João)”.
📍 Pronomes Demonstrativos
Os pronomes demonstrativos situam os seres no espaço ou no tempo em relação às pessoas do discurso. A distinção clássica é:
- Este/esta/isto: próximo da 1ª pessoa (quem fala). Ex.: Este livro que tenho nas mãos…
- Esse/essa/isso: próximo da 2ª pessoa (com quem se fala). Ex.: Esse livro que você tem…
- Aquele/aquela/aquilo: distante de ambas as pessoas. Ex.: Aquele livro lá na estante…
Uso dêitico e anafórico
No uso dêitico (aponta para algo no espaço), aplica-se a distinção acima. No uso anafórico (retoma ou antecipa elementos no texto), a norma é: usa-se este para o que vai ser dito (catáfora) e esse para o que já foi dito (anáfora). Ex.: Refiro-me a isto: a honestidade é fundamental. (catáfora) / A honestidade é fundamental; lembre-se sempre disso. (anáfora).
Quando o texto menciona dois elementos, usa-se este para o mais próximo (último mencionado) e aquele para o mais distante (primeiro mencionado): O candidato e o servidor discutiram; este ficou irritado, aquele permaneceu calmo.
“O” como pronome demonstrativo
O artigo definido “o/a/os/as” pode funcionar como pronome demonstrativo quando equivale a “aquele/aquela” ou “isso”. Isso ocorre especialmente antes de “que” e de “de”: O que você disse é importante. (= aquilo que); A de azul é minha. (= aquela de azul). Essa construção é frequentemente explorada em questões de análise sintática.
🔗 Pronomes e Palavras Relativas
Os pronomes relativos substituem um termo anterior (o antecedente) e introduzem uma oração subordinada adjetiva.
- que: pessoas e coisas — o mais versátil, aceita qualquer antecedente.
- quem: pessoas, sempre com preposição. Ex.: o candidato a quem me refiro.
- o qual / a qual: pessoas e coisas, usado após preposições dissílabas (para o qual, sem a qual); evita ambiguidade.
- cujo / cuja: pessoas e coisas, indica posse, equivale a “de quem/do qual” — NUNCA seguido de artigo.
- quanto: antecedente “tudo”, “tanto”, “todo”. Ex.: tudo quanto foi pedido.
Atenção à nomenclatura: “onde” (lugar: a cidade onde nasci) e “quando” (tempo: o dia em que tudo aconteceu) desempenham papel parecido, conectando a oração ao antecedente — mas tecnicamente são advérbios relativos, não pronomes relativos. É uma distinção morfológica clássica de prova: se a questão pedir para classificar “onde” ou “quando” numa oração relativa, a resposta esperada é “advérbio”, não “pronome”.
Atenção ao “cujo”
O pronome “cujo” é um dos mais cobrados em concurso. Ele equivale a “de quem” ou “do qual” e estabelece relação de posse entre dois substantivos: um antes de “cujo” (antecedente) e outro depois (consequente). A regra fundamental é: cujo nunca é seguido de artigo definido. Dizer “o autor cujo o livro foi premiado” é incorreto — o correto é “o autor cujo livro foi premiado”. Além disso, “cujo” concorda em gênero e número com o substantivo que o segue, não com o antecedente.
❓ Pronomes Indefinidos e Interrogativos
Os pronomes indefinidos referem-se à 3ª pessoa de modo vago ou impreciso. Podem ser variáveis (algum, nenhum, todo, muito, pouco, certo, vário, tanto, quanto, outro) ou invariáveis (alguém, ninguém, tudo, nada, algo, cada, outrem). Quando acompanham o substantivo, funcionam como adjuntos adnominais (pronomes adjetivos); quando o substituem, exercem função substantiva.
Os pronomes interrogativos (que, quem, qual, quanto) introduzem perguntas diretas ou indiretas e funcionam como pronomes substantivos ou adjetivos. A diferença em relação aos indefinidos está no contexto: em perguntas, são interrogativos; em contexto não interrogativo, são indefinidos. Ex.: Quem chegou? (interrogativo) vs. Quem trabalha merece descanso. (indefinido/relativo sem antecedente).
Diferença entre pronome e adjunto adnominal indefinido
Quando um indefinido acompanha o substantivo, é analisado como adjunto adnominal: “Alguns candidatos foram aprovados” — “alguns” é adjunto adnominal de “candidatos”. Quando substitui o substantivo, é pronome substantivo e exerce função de sujeito, objeto etc.: “Alguns foram aprovados” — “alguns” é o sujeito.
📋 Síntese dos Tipos de Pronome
- Pessoal reto — função: sujeito. Exemplos: eu, tu, ele, nós, vós, eles.
- Pessoal oblíquo átono — função: complemento sem preposição. Exemplos: me, te, o, a, lhe, nos, vos, os, as, lhes.
- Pessoal oblíquo tônico — função: complemento com preposição. Exemplos: mim, ti, ele, ela, si, nós, vós, eles.
- Possessivo — função: indica posse. Exemplos: meu, teu, seu, nosso, vosso.
- Demonstrativo — função: situa no espaço/tempo. Exemplos: este, esse, aquele, isto, isso, aquilo.
- Relativo — função: retoma antecedente em oração adjetiva. Exemplos: que, quem, o qual, cujo, onde, quanto.
- Indefinido — função: referência vaga à 3ª pessoa. Exemplos: alguém, ninguém, tudo, algo, todo, algum.
- Interrogativo — função: introduz perguntas. Exemplos: que, quem, qual, quanto.
⚠️ Erros Clássicos em Prova
1. “A sua aprovação depende de ti” — inconsistência de tratamento
Quando se usa “você” para se dirigir ao interlocutor, todos os pronomes da mesma cadeia devem permanecer na 3ª pessoa: “A sua aprovação depende de você”. Misturar “você” (3ª pessoa gramatical) com “ti” (2ª pessoa) constitui erro de paralelismo pronominal — “ti” é o oblíquo de “tu”, não de “você”. Se o tratamento for por “tu”, a forma correta seria: “A tua aprovação depende de ti”.
2. “Em tratando-se” — próclise obrigatória com gerúndio precedido de “em”
É incorreto escrever “Em tratando-se de provas, a atenção redobra”. O gerúndio sozinho pede ênclise (“tratando-se”), mas quando vem precedido da preposição “em”, ela vira palavra atrativa e inverte a regra: exige próclise — “Em se tratando de provas, a atenção redobra”. É um erro sutil porque o candidato aplica a regra do gerúndio “puro” sem perceber que o “em” antes muda tudo.
📝 Questões Comentadas
Questão 1
Enunciado: Assinale a alternativa em que a colocação pronominal está de acordo com a norma culta escrita.
(A) Me disseram que o edital seria publicado.
(B) Disseram-me que o edital seria publicado.
(C) Já disseram-me que o edital seria publicado.
(D) Quando publicar-se o edital, avisem todos.
(B) correta. “Disseram” inicia a oração e o pronome vem enclítico — forma padrão da norma culta escrita.
(A) incorreta. O pronome inicia a oração, o que contraria a norma culta escrita — não há palavra atrativa antes do verbo.
(C) incorreta. “Já” é advérbio atrativo (sem pausa) e exige próclise: “Já me disseram que o edital seria publicado” — manter a ênclise aqui viola a regra, não é só menos natural.
(D) incorreta. A conjunção “quando” é palavra atrativa e exige próclise: “Quando se publicar o edital”.
Gabarito: (B).
Questão 2
Enunciado: Identifique o erro no emprego dos pronomes: “O diretor, cujo o relatório foi elogiado, receberá uma premiação.”
O erro está em “cujo o”. O pronome relativo “cujo” não admite artigo depois de si, pois já exerce a função de determinante do substantivo subsequente. A forma correta é “cujo relatório”.
Observação: “cujo” concorda em gênero e número com “relatório” (masculino singular), o que já está correto na frase — a correção elimina apenas o artigo “o”.
Questão 3
Enunciado: Assinale a alternativa em que o pronome demonstrativo está empregado corretamente segundo a norma culta.
(A) Refiro-me a isso que direi agora: a dedicação é essencial.
(B) Refiro-me a isto que direi agora: a dedicação é essencial.
(C) Esses candidatos que estão aqui comigo são os finalistas.
(D) Aqueles candidatos que estão com você são os finalistas.
(B) correta. Quando o demonstrativo antecipa algo que será dito (catáfora), usa-se “este/esta/isto”. “Refiro-me a isto que direi agora” é catáfora — o conteúdo referido (“a dedicação é essencial”) ainda não foi dito.
(A) incorreta. “Isso” indica algo já dito (anáfora), incorreto neste contexto catafórico.
(C) incorreta. “Esses” deveria ser “estes”, pois os candidatos estão próximos de quem fala (reforçado por “comigo”).
(D) incorreta. “Aqueles candidatos que estão com você” deveria usar “esses”, já que estão próximos do interlocutor, não distantes de ambos.
Gabarito: (B).
Questão 4
Enunciado: Qual alternativa apresenta emprego correto do pronome oblíquo?
(A) Entre eu e meu colega, decidimos pela melhor proposta.
(B) Para mim resolver o problema, preciso de mais dados.
(C) O gerente convidou a mim e a você para a reunião.
(D) Isso é entre eu e a empresa.
(C) correta. “Convidou a mim e a você” está correto — “convidar” é verbo transitivo direto, e quando o objeto direto é formado por pronomes tônicos coordenados, ele vem preposicionado com “a” (“objeto direto preposicionado”), não vira objeto indireto por causa disso.
(A) incorreta. Após “entre” usa-se oblíquo tônico: “Entre mim e meu colega”.
(B) incorreta. “Mim” não pode ser sujeito de verbo; o correto é “para eu resolver” (pois “eu” é sujeito do infinitivo “resolver”).
(D) incorreta. Após “entre” exige-se “mim”: “entre mim e a empresa”.
Gabarito: (C).
✅ Considerações Finais
O domínio dos pronomes exige atenção sistemática a cada categoria: as palavras atrativas da próclise, a impossibilidade de pronome no início de oração na norma culta escrita, a regra do “cujo” sem artigo, a ambiguidade de “seu/sua” e o uso correto dos demonstrativos em contextos dêiticos e anafóricos.
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